PAIXÃO PELA PENÍNSULA VALDÉS: NATUREZA EM ESTADO PURO

PENÍNSULA VALDÉS

Se existe algum lugar exemplo de natureza em estado puro é a Península Valdés, na Patagônia Argentina. São 4000 km² de área protegida, com falésias e enseadas incríveis, conhecida como um “acidente costeiro”. Acidente mais lindo, meu! Declarada “Patrimônio da Humanidade” pela UNESCO, é um quase quadrado unido ao continente pelo Istmo Ameghino, distante 95km de Puerto Madryn, na província de Chubut. Eu tive o privilégio de conhecer esse lugar incrível em julho de 2016 e me apaixonei. Voltei em abril de 2017 e vivi uma dessas experiências que não tem outra igual.

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Punta Norte

O que é tão importante desse pequeno pedaço de terra fora do continente? Além de paisagens maravilhosas, a possibilidade de ver uma riqueza de fauna terrestre e marítima incríveis. Lugar escolhido por fotógrafos de várias partes do mundo, profissionais ou amadores, de viajantes que curtem o conceito de slow travel, de biólogos, arqueólogos, geólogos, amantes da natureza e de esportes como mergulho, kitesurfbiking trekking, pelas inúmeras possiblidades que oferece, dentro de um entorno simplesmente maravilhoso.

CHUBUT

Comecemos do começo. Chubut é uma das províncias patagônicas mais completas e “hermosas”, porque nela encontramos de tudo: neve e frio no inverno, sol e calor no verão, estepes, costa marítima, montanhas, descobertas arqueológicas e uma riqueza na fauna que apaixona qualquer mortal. Somando o fato de que Chubut possui Áreas Naturais Protegidas, onde são priorizadas a proteção e manutenção da diversidade biológica, dos recursos naturais e culturais, o respeito à biodiversidade e do eco-turismo e dois Patrimônios da Humanidade. Essas áeras somam aproximadamente 4% da superfície chubutense e são pontos-chave para a proteção do mundo, porque conservam os ambientes naturais e o ecossistema.

O Sistema de Áreas Naturais Protegidas de Chubut compreende as regiões de Península Valdés, Punta Loma, Punta Tombo, Cabo dos Bahías, Bosque Petrificado Sarmiento, Nant e Fall, Lago Baggit, Piedra Parada, Punta del Marqués, Laguna Aleusco e Punta León. Eu sei, sou uma apaixonada por tudo isso, então é muito fácil falar e contar o que vivo e sinto cada vez que vou para a Patagônia e especialmente para Chubut; aos poucos vou escrevendo sobre cada um desses lugares, que visito uma e várias vezes, sempre que posso. Hoje é o dia da Península Valdés.

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Puerto Pirámides

AVISTAGEM DE FAUNA NA PENÍNSULA VALDÉS

Península Valdés é sem dúvida o paraíso da avistagem de fauna. Aqui as baleias francas e as orcas passam grande parte do ano acasalando, procriando, alimentando-se e cuidando de suas crias. Também é o lugar preferido dos pinguins de magalhães, dos lobos e leões marinhos. Além disso, muita fauna terrestre composta por raposas, choiques (parente do avestruz), maras (uma lebre gigante), tatus, guanacos (parente da lhama) e mais de 150 tipos de aves. No mapa abaixo dá para ver direitinho os pontos da Península: Punta Norte (orcas, pinguins, lobos e leões marinhos), Estancia San Lorenzo (ao lado de Punta Norte, pinguins), Puerto Pirámides (baleias francas), e em terra toda a fauna terrestre que vai passando na nossa frente o tempo todo.

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BALEIAS FRANCAS

As baleias francas, que tem esse nome por conta da sua franqueza e cordialidade, chegam a ser ingênuas, porque realmente se aproximam muito para nos observar e deixar-se observar, de uma maneira tranquila e calma; é maravilhoso ver a um animal marinho que mede 25 metros sendo tão amigável chegando de tão perto. Elas vivem na Península por muitos meses, onde acasalam, procriam e ensinam suas crias a viver no mar. O ballenato (filhotes de baleia) nada ao lado da mãe e vai aprendendo tudo o que ela lhe ensina.

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Foto de Marcos Amend

As baleais francas podem ser vistas por terra, mas o mais legal mesmo é subir no barco e entrar no mar. Uma das maiores emoções que já senti foi quando vi meu primeiro grupo de onze baleias francas nadando do lado do barco, pulando, acasalando, levantando a cabeça (porque os olhos delas estão na parte de baixo) para dar uma olhadinha curiosa no que nós, humanos, fazíamos por ali. Outra dica é vê-las por baixo d’água, com o submarino do Yellow Submarine Argentina.

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ORCAS

As orcas são enormes mamíferos marinhos carnívoros cuja dieta está diretamente ligada ao seu habitat; sendo assim, os hábitos de cada grupo dependem da região em que estão. Elas também escolhem a Península Valdés para viver; o mais curioso é que utilizam uma estratégia de caça única, chamada de varamientodesenvolvida por esses animais inteligentes. O varamiento consiste em chegar muito próximo da costa, praticamente subindo na areia, arrebatar a presa (lobos ou leões marinhos) e levá-la para a água. Para as orcas é um grande risco, porque nessa manobra podem ficar encalhadas na areia. As orcas da Península são estudadas e seguidas de perto pelo Projeto Orca, um programa de observação das orcas em estado selvagem, dirigido por Juan Carlos López (conhecido como Orcaman), que da a cada uma das orcas da região um nome e uma identificação. Dessa forma, terminamos conhecendo esses enormes mamíferos por nomes como Mel e Bernardo, sabendo qual seu grupo familiar, quando chegam, quando vão embora, se tiveram filhotes…

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Foto de Juan Carlos López – Orcaman – Diretor do Projeto Orca.

A cada ano mais amantes da natureza vão para Punta Norte, uma das praias da Península Valdés onde as orcas realizam o varamiento, esperando ali por horas e horas, muitas vezes dias, para ver quando elas aparecem. E quando acontece, é especial! Em abril eu estive quatro dias na Península, quietinha, câmara pronta, e nada… Fomos embora e quatro dias depois os colegas e amigos contavam que elas apareceram. Assim é a natureza, com seus tempos próprios, que não tem nada a ver com nossa vontade.

A Secretaria de Turismo e Áreas Protegidas é o organismo responsável por fornecer as autorizações para entrada em algumas das Áreas Protegidas de Chubut e a Reserva onde podemos ver de perto o varamiento em Punta Norte é um deles. São admitidas somente oito pessoas por dia e, para conseguir a autorização, além do pagamento de uma taxa que varia conforme o que se deseja fazer (fotografar, filmar, somente observar) deve-se apresentar um projeto explicando o motivo de querer estar ali. Todo esse cuidado faz com que as Áreas Protegidas possam se manter intactas e seguras.

O responsável geral por parte deste trabalho é o Hector Horacio Casin, Chefe dos Guarda Faunas, uma dessas pessoas que vale a pena conhecer, apaixonado pela natureza, pela Patagônia, por viajar, e pela observação de fauna marinha; o Hector é também o que chamamos de veedor (quem vê), ou seja, a pessoa que acompanha os observadores e que conhece tanto desses bichos que vai indicando para onde olhar e apontar os binóculos ou a câmera. A guarda-fauna responsável por Punta Norte é uma mulher, Lorena Moraleja, que mora no lugar; querida que só ela, um dos bons motivos para passar horas tomante mate e jogando conversa fora enquanto as orcas não vem.  Outra experiência única é essa possibilidade de passar os dias com fotógrafos, biológos, guarda faunas e amantes da natureza em Punta Norte, aprendendo muito; além dos bichos, os amigos que fazemos são especiais e as bolachinhas também!

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Hector dando as dicas aos fotógrafos que observam lobos e leões marinhos enquanto as orcas não aparecem.

LOBOS E LEÕES MARINHOS

Os lobos e leões marinhos também estão por todo lado. Há várias das chamadas loberías, lugar onde os lobos marinhos se encontram e estabelecem suas comunidades, procriando e vivendo; algumas são transitórias e outras são fixas. Da mesma forma, os leões marinhos convivem com os lobos, muitas vezes compartilhando o mesmo espaço físico. Dependendo da época do ano podemos ver muitos bebês de leões marinhos. Confesso que depois de ver esses bichos lindos assim é difícil pensar que as orcas vão terminar jantando algum deles!

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Leão marinho enorme dormindo com os bebês de lobos marinhos.

PINGUINS DE MAGALHÃES

Os pinguins de magalhães são também muito esperados. As pinguineras – lugares escolhidos por eles para fazer seus ninhos e cuidar das crias – oferecem possibilidades de avistagem e também de estar muito perto dos pinguins, que caminham no meio dos seres humanos, fazendo poses bem na nossa frente.  Punta Tombo (uma reserva provincial) e Estancia San Lorenzo (em Punta Norte) são as duas pinguineras da Península Valdés. O trabalho de cuidado com esses animais é intenso e há, assim como com as orcas e francas, uma organização de estudo e proteção, a Global Penguin Society – GPSA importância desse simpáticos animais é tanta que todo o ano eles são ansiosamente esperados a partir de setembro, quando começam a chegar.

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HOSPEDAGEM

Eu fico hospedada em Puerto Pirámides, uma cidadezinha de praia na Península Valdés, com 500 habitantes e uma história incrível. Pirámides foi construída para receber os trabalhadores da ferrovia que tinham que morar na região e no começo eram somente 80 moradores. A riqueza da fauna, das paisagens, os esportes ligados a natureza e o fato de ser o lugar onde as baleias francas passam a maior parte do ano fez com que o turismo eco-sustentável fosse se desenvolvendo na região, hoje uma das pioneiras no cuidado com o meio ambiente e preservação do ecossistema local, recebendo os turistas com uma infra estrutura excelente, sem perder a calma do lugar. O conceito de slow travel é sentido em cada atividade, cada lugar, hotel e restaurante de Pirámides. Os moradores locais são orgulhosos de onde vivem e sabem da responsabilidade que tem em proteger esse espaço, passando esse ensinamento aos demais.

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Centro de Puerto Pirámides

O hotel Oceano Patagonia Wild Coast Residence é meu segundo lar, sem exagero. AMO. De frente, literalmente, para as baleias, olhando o mar, é um desses hotéis boutique super fofo e, o melhor de tudo, foi construído de maneira eco-sustentável. Tudo no hotel é pensado para economizar energia e otimizar os recursos naturais. Até os móveis foram feitos com madeira reciclada e tem um charme especial. Cada apartamento é, na verdade, uma kichinete com tudo o que a gente precisa para se sentir super confortável porém com liberdade, com esse toque especial dado, por exemplo, pela qualidade dos travesseiros, colchões e ammenities. Se não quiser sair depois de um dia cansativo, você pode cozinhar e jantar na varanda olhando para o mar e escutando as baleais. O café da manhã nessa varanda, vendo o sol nascer, também é demais! Não é a toa que o Oceano Patagonia foi o segundo colocado no Concurso Hotelaria Sustentável, na categoria Hotel Responsável dos Hotéis Mais Verdes da Argentina.

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Na Península Valdés também há possibilidade de fazer muito biking pela região, além de kitesurf (o vento patagônico e o mar são excelentes!). Caminhadas, trekking, subir morros e ter acesso a uma vista incrível… Dessas viagens perfeitas para quem ama a natureza, os animais, a fotografia, gosta de esportes ou simplesmente quer descansar corpo e mente em um lugar que tem uma energia incrível, sozinho ou com a família. Conta a lenda que os ETs tem um portal por ali, em algum lugar, entre um morro e outro. Como dizemos em espanhol, “es creer o reventar”. Eu só sei que quando estou na Península sinto a melhor energia do mundo. E que os entardeceres e amanheceres mais maravilhosos estão nesse lugar mágico…

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Amanhece em Punta Norte.

 

BONUS TRACK

  • Calendário de Fauna: algumas dicas de que tipo de animais aparecem e quando. Detalhes que ajudam a organizar uma viagem de avistagem.

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  • Como chegar: de Buenos Aires os vôos vão até Puerto Madryn ou Trelew e depois por terra até a Península. Há duas companhias aéreas que fazem esse trajeto: Aerolíneas Argentinas e Andes Líneas Aéreas.
  • Se quiser ficar em Puerto Madryn: também pode, mas não rola se quiser ficar vários dias na Península, porque são 95km de distância. Essa combinação dá certo no caso de quem vem passar um dia somente na Península, senão é muito trabalho.
  • Visitar o Centro de Informação do Istmo Ameghino: um pequeno museu na entrada da Península, com explicações sobre o lugar e a fauna, além de um mirante muito legal.
  • Viagem organizada: a empresa Slow & Steady Travel Experiences organiza viagens saindo de Buenos Aires até a Península, em diferentes épocas do ano, conforme o calendário de fauna. Trabalham com grupos bem pequenos com tudo incluído, em conjunto com a Agência Argentina Vision.
  • Comer em Pirámides: o La Estación Bar e o La Covacha são excelentes. O primeiro está aberto quase o ano todo.

 

MAIS INFORMAÇÕES

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