CHUBUT – PATAGONIA ARGENTINA

CHUBUT

Começo por dizer que a Patagônia Argentina é amor antigo e que permanece e por isso escolho um vídeo do cantor francês, Florent Pagny, apaixonado também pela região, para representar este post. Cada vez que viajo para o Sul da Argentina conheço algo novo, porque não há limites para a quantidade de surpresas que esta região pode dar a uma viajante empedernida como eu, que gosto tanto de turismo de aventura. E Chubut, o estado (na Argentina chamado de “provincia”) é muito rico em possibilidades turísticas. Em julho conheci uma outra parte: Península Valdés, Punta Ninfas, Puerto Madryn, Gaiman e Trelew.

Chubut
Mar, pedras, planalto, montanhas, estepes. Isso tudo é Chubut.

Fiquei hospedada em dois hotéis (review sai logo), o El Pedral, em Punta Ninfas, e o Hotel Territorio, em Puerto Madryn; ambos, maravilhosos, cada um em seu estilo. A comida patagônica também merece um lugar (muito) especial tá bom já começo a falar de comida desculpa aí, já que a culinária local é baseada no que a região oferece (e oferece!!): frutos do mar, peixe, cordeiro, carnes de caça, doces caseiros, defumados, embutidos, pães… Os vinhos, já famosos, pois há excelentes bodegas na região (ampliaremos a info logo, logo).

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El Pedral
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Hotel Territorio

Punta Ninfas: El Pedral – Entre pinguins, baleias e lobos marinhos

Além de ser um hotel estilo lodge/fazenda, o El Pedral é uma reserva ecológica que mantém e sustenta um sistema de limpeza e controle das praias locais e de ser o habitat fixo de uma da colônia de Pinguins de Magalhães da região, monitorada pela GPS (Global Penguin Society). Isso, para o meio ambiente, é de suma importância. No dia 17 de setembro próximo a Reserva El Pedral e a GPS se unem e, com a ajuda de 50 voluntários locais, entre eles biólogos e fotógrafos de meios conhecidos da Argentina, limpam a praia durante todo o dia, preparando com isso o lugar para a chegada dos “visitantes ilustres”.

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Limpando a praia.

Todos os anos, em setembro, a colônia de pinguins se instala em Punta Ninfas, mais precisamente no El Pedral, e fica ali até abril do ano seguinte; nesse meio tempo, colocam ovos, procriam, as crias crescem. É possível caminhar por entre as aves e observar como interagem, entre eles e com os demais animais. São muito sociáveis com os humanos e sabem de antemão que estão em lugar seguro.

Pinguins no El Pedral
Pinguins no El Pedral

Além dos pinguins,  também no penhasco de Punta Ninfas os elefantes marinhos encontraram seu habitat e podem ser vistos durante o ano todo. A partir de setembro chegam os machos que vem aumentar a colônia anualmente parece que tudo acontece em setembro por aqui. Também o Farol de Punta Ninfas amo faróis é uma visita obrigatória, no ponto mais alto do penhasco, além das muitas trilhas que vão até as diferentes praias, todas de frente para o Golfo Novo.

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Lobo marinho

Em Chubut as baleias francas austrais são visita constante e, logicamente, passam por El Pedral. Eu mesma estava na praia, sentada pensando e olhando para o mar, quando escuto aquele barulho característico alto e grave (pra quem não sabe, as baleias antes de soltar água para o alto fazem um barulho que parece um trem apitando) e vejo uma simplesmente saltando à minha esquerda. Experiência incrível e inesquecível. A praia é linda, diferente, cheia de pedras – daí o nome do lugar – e merece ser visitada tanto no inverno quanto no verão. A mãe natureza foi muito bondosa aqui.

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Estepes chubutenses no amanhecer de Punta Ninfas
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Praia de El Pedral

Península Valdés: Puerto Pirámides – Mar, sol, reaggae e… Baleias!

Um acidente costeiro, esta é a definição geográfica da Península Valdés. Um dos “acidentes” mais bonitos que já vi, pois consegue reunir a imensidão do mar (Oceano Atlântico), terra a perder de vista (estepes patagônicas), fauna variada (especialmente acuática) e ainda é considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.  Vou tentar descrever mas é difícil, porque é linda demais, faltam palavras, é pura paixão. Ao norte de Chubut, ainda sobre o Golfo Nuevo, chegamos a Puerto Pirámides, o único centro de serviços povoado dentro da Península Valdés e a capital da observação da baleia franca austral da região (avistaje de ballenas).

Chegando à Puerto Pirámides
Chegando a Puerto Pirámides

O nome da cidade vem dos penhascos em formato de pirâmide que rodeiam a baía de onde saem os barcos em busca das famosas baleias franca. Um lugar pitoresco, pequeno, com quase 500 habitantes, estilo praia-raeggae-sol-mar. Morro aqui e morro feliz. E o único ponto turístico autorizado pelo governo de Chubut para a saída dos barcos que fazem a observação de baleias, o que traz um fluxo de turistas constante para o lugar, coisa que não altera o humor local em nada, garanto, porque quem mora aqui quer paz e oferece paz.

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A cidade de Puerto Pirámides
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O por que do nome

Então, o que não se pode deixar de fazer em Puerto Pirámides é obviamente ver as baleias, uma experiência única e maravilhosa!  A emoção de ver esses bichos enormes de perto é indescritível e eu sei que por mais que tente explicar estou longe de conseguir passar as sensações do momento. Elas são enormes, não dá pra ter idéia real até que as temos ao lado. Na vida de um viajante aventureiro há um antes e um depois de ver certos animais de perto e as baleias são desses. Também aparecem baleias jubarte, em menor quantidade e que não são tão sociáveis, e as orcas, que vem buscar alimento entre os pinguins, filhotes de lobos marinhos e “otras cositas más”.

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Ao alcance da mão. Foto zero zoom…

Elas são sociáveis, dóceis, tranquilas e delicadas, independentemente dos seus 25m de comprimento e muitas toneladas. Como o objetivo delas é o cruzamento e/ou o cuidado com as crias (chamadas de ballenato) sempre haverá uma dessas situações: ou os machos estão tentando ganhar a fêmea ou a mãe está ensinando algo ao filhote. São imagens que ficam gravadas na retina, para a vida inteira e pude participar de ambas. Neste caso, tínhamos ao lado da lancha um grupo de 10 animais, nadando juntos, vários machos e uma fêmea; o interessante é que os machos se unem como sempre os homens são unidos, vejam só! para conseguir cobrir a fêmea; eles SABEM qual tem maiores possibilidades de sucesso e entre todos o ajudam, tentando virar a fêmea de barriga para cima até que o cidadão em questão consegue alcançá-la. É o famoso “vencer pelo cansaço” porque chega um momento em que ela não briga mais e simplesmente cede.

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São 25 metros…

Há duas formas de ver as baleias em Puerto Pirámides: por cima da água e por baixo. Eu aconselho profundamente fazer AS DUAS coisas! Uma delas é com o submarino de Yellow Submarine e a outra com a lancha de  Southern Spirit. Até mesmo o momento em que as embarcações saem da terra ao mar é tudo muito diferente e único.

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Yellow Submarine ainda em terra
Na lancha do Southern Spirit pensando na vida...
Na lancha do Southern Spirit pensando na vida

No caminho entre Puerto Madryn e Puerto Pirámides está o Centro de Visitantes do Istmo Ameghinos, que divide a Península de Valdés do resto do  continente. É um Centro de Interpretação que oferece aos visitantes informações sobre a Península, sua fauna e flora, história, geografia e geologia, nas diversas salas com fotos, esqueletos e mapas. Além disso, tem uma torre com uma vista ampla e linda da região o que significa mais fotos é claro. Vale a pena parar e dispender uma hora na visita.

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Vendo a paisagem desde a torre de observação. Conta a lenda que a ilha ao fundo foi a inspiração de Saint Exupèry para o desenho da boa-chapéu do Pequeno Príncipe, quando ele passava por aqui uma vez por semana pilotando o avião do Correio Postal. Que é igualzinho, lá isso é…
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Esqueleto de baleia franca em tamanho original

Puerto Madryn: a natureza de perto

Linda do começo ao fim, une tudo de melhor que a vida oferece, ao menos pra mim: praia, natureza rica, frio seco de 5 graus no inverno e calor de 35 graus no verão, montanhas, boa gastronomia, é pequena mas não muito, turística, tranquila, feliz. Madryn é, sem dúvida, um pequeno paraíso. Um dos mais lindos atardeceres que pude presenciar até agora nesta vida, fiquei de boca aberta. De fato, continuo com a boca aberta, porque penso nela quase todos os dias, bem ao estilo “me apaixonei”! um dia vou morar aqui juro

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As opções de passeios e atividades são muitas.  Conhecida pela observação de baleias, Madryn é também a capital argentina do mergulho. Chove pouco durante o ano, o que ajuda muito a manter o clima estável (externo e interno) e com isso criar um microclima especial. Há vários balneários onde a prática do windsurf e do mergulho é constante. Além disso, o kayaking e snorkeling com lobos marinhos, kayaking com baleias,  mountain bike e cavalgadas, observação de baleias na praia de Doradillo, todas atividades para os amantes do ar livre. Não é a toa que o slogan da cidade é Madryn, Naturaleza más cerca (Madryn, natureza mais perto).

Por conta das condições climáticas, pude fazer somente a observação de baleias na praia de Doradillo, que foi um sonho. As demais atividades ficaram para minha próxima visita, o que é uma excelente desculpa pra voltar! Doradillo é o tipo de lugar para ir de dia ou de noite. De dia, horas para ver os gigantes marinhos passando na frente da gente como se não fosse nada. De noitinha, lugar ideal para ir fazer um picnic com direito a vinho patagônico e queijos diversos, luz da lua e um violãozinho.

Só um pedacinho... Na minha frente, passeando como se não fosse nada...
Eu, baleia.

Doradillo tem esse nome porque o sol, quando pega na praia… é bonito… é bonito… deixa tudo com um tom dourado único. É impossível que alguém passe por este lugar e saia da mesma forma que quando chegou. Alguma coisa dentro da gente muda. Pura sensibilidade.

Dorado
Dourado como o sol

Chegar a Puerto Madryn não é difícil. De carro, são 1.350km desde Buenos Aires (ou seja, de ônibus também). Uma viagem linda, de dois dias, com paisagens incríveis, que vou fazer e contar em detalhes. Ou de avião, porque o aeroporto recebe vôos desde Buenos Aires pela Andes Linhas Aéreas. Puerto Madryn tem ofertas de atividades tanto para inverno como para o verão o que faz da cidade um destino turístico importante e interessante. Sem falar que é “tudo friendly”, sem nenhuma dúvida.

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Trelew – a Patagônia Jurássica

De Madryn para Trelew, segue a viagem. São 65km passeando pela Patagônia. Com 100.000 habitantes, Trelew é o polo têxtil mais importante da Argentina. Para mim o que mais importa é que Trelew tem um aeroporto que recebe vôos diários desde Buenos Aires pela Aerolíneas Argentinas e que é um centro de investigação paleontológica importantíssimo na América Latina, com arquelógos trabalhando sério no MEF – Museo Paleontológico Egidio Feruglio. Acontece que a Patagônia é também um centro de descobrimentos arqueológicos e não é por acaso que há um ano foi descoberto o maior dinossauro DO MUNDO numa fazenda nas estepes patagônicas, cujos ossos estão no MEF exatamente para serem catalogados e expostos. Essa descoberta modificou muitas coisas no mundo da paleontologia e da arqueologia mundial, porque o achado foi muito significativo: toda uma “manada” de ossos de dinossauros, o que possibilitou montar quase 85% do esqueleto de um animal inteiro. O museo foi aumentado para poder receber a ossada montada, quando terminem os trabalhos, e museos como o De História Natural de Nova York já estão encomendando réplicas. Muitos dos melhores cientistas do setor trabalham no MEF e este museo, tão pequeno se comparado aos maiores do mundo, guarda segredos que ninguém imagina.

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Réplica no MEF
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Fêmur do último achado patagônico, que será o maior dinossauro encontrado até hoje no mundo. Não está exposto ainda, segredos do “back stage”. Sensação única poder tocar com a mão milhões de anos de história…

Na Patagônia o respeito pela arqueleogia é tão grande que todos sabem da importância de comunicar ao MEF  qualquer coisa encontrada que possa se parecer a um osso ou instrumento diferente. Há uma consciência local no que diz respeito ao assunto e isso é de grande ajuda para o museo.

Fernando merece uma atenção especial. Ele é o quieto e solitário ser responsável por catalogar, acondicionar e cuidar de TUDO o que chega ao MEF. Conhece cada ossinho, onde está, quando e onde foi encontrado.
Menção especial ao quieto e solitário ser responsável por catalogar, acondicionar e cuidar de TUDO o que chega ao MEF. Conhece cada ossinho, onde está, quando e onde foi encontrado, é um poço de conhecimento.

Gaiman: Gales na Argentina

Uma cidade pequena com uma grande história, assim é Gaiman, a 15 km de Trelew. A única colônia Galesa reconhecida oficialmente, foi visitada por Lady Di. A casa mais antiga da cidade, construída em 1874, ainda está de pé e hoje é um museu. Na cidade o gaélico é o segundo idioma, ensinado nas escolas. A colonização de Gaiman se deu sob circunstâncias especiais: não vieram para o lugar as pessoas com o mesmo perfil das colonizações em geral (pobres buscando um lugar melhor para viver, foragidos da justiça, enviados pelos reis); aqui chegaram os galeses que quiseram vir, porque não aceitavam estar sob as ordens de uma rainha que diziam não ser a deles. Pessoas cultas, decididas, desbravadoras, corajosas, que escolheram esta região porque era muito parecida com sua terra natal. E até hoje o perfil dos gaimenses é esse.

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O famoso chá galês está presente nas inúmeras casas de chá espalhadas pela cidade, cada uma delas com seu estilo. A torta negra, a manteiga batida, os segredos da cozinha passados de mãe para filha desde os primeiros colonizadores. Gaiman é um pedaço do País de Gales na Patagônia Argentina. Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay…

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Chubut

Além da gastronomia deliciosa, a região oferece muitas atividades ao ar livre, que vão desde observação de aves até trekking e biking. A cultura galesa é mantida e muitas são as festividades seguindo a tradição. Em agosto é o aniversário da cidade e os festejos duram um mês.

Tudo isso é apenas um pouco de Chubut; tem muito, muito mais. Motivos para mais viagens e mais histórias!
#vivichubut #chubutargentina #madryn_naturalezamuycerca #patagoniafantastica

 

BÔNUS TRACK

  • Onde comer em Puerto Madryn: Náutico Bistrô del Mar – comida deliciosa, atenção nota dez, bons vinhos e aperitivos, tudo isso na Beira Mar olhando para o horizonte sem fim do oceano atlântico, no Golfo Nuevo. Dica: as especialidades são peixe e frutos do mar. Não deixar de experimentar as vieiras gratinadas, o risotto de camarões e as ostras. E seja feliz!
  • Onde comer em Puerto Pirámides: La CovachaPratos simples, lugar pequeno, na subida que vem da praia. Dica: “pastel de cordero”. Mas não coma antes de embarcar para fazer observação de baleias, deixe pra depois, porque não dá muito certo. (experiência própria…)
  • En Puerto Madryn contatar a empresa de turismo Argentina Vision, séria e dedicada, pontual e com guias poliglotas nota dez. Se viajar sozinho, também, porque te deixam em paz e ainda dão todas as dicas de segurança.
  • En Gaiman tomar o chá em Ty Gwyn – Casa Branca em gaélico. De longe a melhor casa de chá da cidade, não desmerecendo as demais. Dica: não deixe de provar a “torta de crema”, não vou dizer por que. Prove e depois me conte…
  • Chubut é kids friendly, gay friendly, pets friendly. Tudo friendly. Vivem e deixam viver e atendem a todos muito bem.
  • O El Pedral tem transporte IN e OUT nos aeroportos de Trelew e Madryn, para os seus hóspedes. Não esqueça de pedir, se for o caso, está incluído no valor.
  • Viajando solitário? Vem também, vem sem medo, se joga. Dos melhores lugares para uma “lonely trip“, eu garanto!
  • Em Chubut tudo é feito ao sabor dos ventos e marés, literalmente. Portanto, qualquer atividade pode ser cancelada no último momento: porque o vento aumenta, porque sobe a maré, porque o mar está bravo. Se isso acontecer, relaxe e tome uma cerveja artesanal olhando o mar.
  • Esta região patagônica teve muita imigração portuguesa (uma novidade pra mim) então é muito comum encontrar Pereiras, Santos, Correias, Silvas, Mendonças, Castros e outros mais. Para  dar só uma idéia, o Diretor de Turismo de Gaiman se chama Lucas Aparício e seus avós são portugueses (isso que a cidade é de predominante colonização galesa!). Só que ninguém fala português e a pronúncia sai meio esquisita, motivo de muitas risadas e piadas, que eles aceitam sem problemas. Porque o bom humor tem que ser parte da vida!

 

As fotos sem marca d'água foram gentilmente cedidas por El Pedral Hotel de Campo.

4 thoughts on “CHUBUT – PATAGONIA ARGENTINA”

  1. Lia, que espetáculo de lugar! Amei e confesso que não conhecia nadica! Mais lugares pra wish list! Parabéns pelo post! beijos

  2. Lia, que viagem dos sonhos! Como te disse, sempre tive muita curiosidade para conhecer Trelew e Puerto Madryn.
    Da Argentina só conheço Buenos Aires e Ushuaia. Louca para explorar mais!

    Parabéns, fiquei encantada! Beijos

    1. Karla é lindo demais! Eu sou apaixonada pela Patagonia, e olha que ainda falta muitoo pra conhecer… Madryn é maravilhoso. Logo tem mais posts!

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